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“No vértice da confluência do caudaloso Paraná com o lendário Tietê surgirá uma grande Metrópole”, Euclides da Cunha.

Para contar a história da fundação de Andradina temos que voltar ao século XIX, quando o Governo Imperial decidiu montar dois estabelecimentos navais em áreas ainda não povoadas. Um deles ficava às margens do Salto de Avanhandava e outro na foz do rio Tietê próximo ao Salto de Itapura. A preocupação à época era defender o Brasil Colônia de ataques marítimos do Paraguai, através do rio Paraná.

Para o Império, estes dois portos navais eram a estratégia perfeita, já que para adentrar ao Rio Tietê teriam que passar por estes dois postos, além de enfrentarem condições naturais adversas à navegação da época. Mas, os locais também possuíam condições favoráveis ao desenvolvimento urbano.

 
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Então em 26 de junho de 1858 foi criado, pelo Decreto Imperial nº 2.200, a Colônia Militar e Estabelecimento Naval de Itapura com cinco lotes rurais a fim de se estabelecer limites entre as províncias de São Paulo e Mato Grosso. Mas, somente em 1865, começou a ser construída a residência do primeiro comandante do destacamento militar, Antônio Mariano de Azevedo. O prédio era uma fortificação militar da época que acabou conhecida por “Palácio de D. Pedro”. Ao contrário do que se pensa, Itapura não teve participação ativa durante a Guerra do Paraguai, iniciada em 1864.

Os planos do Império era o desenvolvimento de um centro agrícola comercial no Pontal Tietê-Paraná, onde a matriz seria a Colônia de Itapura. Assim, gradativamente seriam povoados o Paranapanema, Ivinhema e Iguatemi, como também os terrenos que ficavam entre os rios Piquiri, Taquari e Sucuriú. A política usada pelo Governo Imperial foi a de doação de terras a todos os colonos e operários que preenchessem certos requisitos. 

 
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Dezoito anos depois de criada, em 1876, a Colônia dispunha de 90 casas de moradias, ruas arborizadas, calçadas de pedras, sistema de água encanada (ainda rudimentar), quartel, capela, armazéns e oficinas (olaria e marcenaria), porto e o vapor Tamandataí. Mesmo assim, as dificuldades de comunicação e a falta de estradas isolavam a Colônia que foi sendo abandonada aos poucos. Chegando a ser habitada por poucos veteranos da Guerra do Paraguai e seus familiares que ocupavam dez casas. Já o Império oficialmente abandonou a Colônia em 30 de dezembro de 1895, através da Lei Orçamentária nº 360. Com isso, os lotes de terra destinados a área urbana se tornaram uma vila de pescadores e outros quatros lotes rurais que mediam uma légua quadrada cada, transformaram-se em fazendas.

Já em 29 de outubro de 1906, a Vila foi elevada à Distrito de Paz tendo novamente os olhos voltados à ela com a construção do trecho ferroviário Itapura-Corumbá, em 1904, pela Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.
Itapura foi o primeiro município brasileiro a ter uma Usina Hidrelétrica, a S.A. Empresa Elétrica do Itapura, que foi inaugurada em setembro de 1945.

 
 

Os primeiros povoados que se estabeleceram no noroeste do Estado de São Paulo foram na região do Avanhandava, a partir da década de 40 do século XIX. Eles vinham atraídos pelo caminho sertanejo que levava sonhos de oportunidades no caminho de Piracicaba à Cuiabá, e que era uma rota aberta em 1838 pelo pioneiro Joaquim Francisco Lopes. O rio Tietê e o ribeirão Lajeado foram muito usados nesta época.

O primeiro posseiro da área, e foi Francisco Rodrigues de Campos e o último Joaquim Francisco de Resende que transferiu a parte maior parte das terras para Amadeu de Almeida Santos, após 1.900. Amadeu loteou suas áreas em glebas e as repassou a grupos empresariais como o Grupo Campos Sales e para empreendedores particulares como Elísio de Castro Fonseca, Joaquim Rodrigues Sobrinho e Antônio Januário de Vasconcelos. Em 1904, os empreendedores acordara as divisas de suas áreas e se reconheceram como legítimos proprietários da imensa área. Antônio Januário e Elísio de Castro ficaram com as terras à margem direita do Rio Aguapeí (Rio Feio), onde hoje encontram-se a maioria das cidades do Noroeste Paulista. 

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O primeiro mapeamento da área foi realizado pela Comissão Geológica e Geográfico do Estado de São Paulo, coordenado por Orvile Derby, com um volume de 23 folhas topográficas na escala 1:100.000 que representava ¼ da área territorial paulista. Durante este trabalho se notou que a área vinha sendo ocupada de maneira desordenada, o que forçou o Governo a tomar medidas para garantir a propriedade do Estado como a demarcação das terras devolutas e as divisas com Minas Gerais e Paraná.

 

O Governo também substituiu Orvile por João Pedro Cardoso que deveria se preocupar com o desenvolvimento econômico e com as principais demandas de São Paulo. Cardoso priorizou as expedições exploratórias do extremo sertão, sendo coordenador até 1930. Nesta empreitada foi descoberto que as terras loteadas por Amadeu Almeida Santos eram devolutas, então pertenciam ao Estado. As terras estavam localizadas as áreas margeadas pelos rios Tietê, Paraná, Paranapanema e cabeceiras do Peixe e Feio (Aguapeí). Houve conflitos pela legitimação de propriedades que mesmo tendo conhecimento de que as terras de Amadeu haviam voltado ao domínio do estado se intitulavam proprietários. Mesmo diante dos conflitos de posse, Teodoro Marcos Airosa e João Martins de Melo compraram os direitos da posse e se autodeclararam condôminos do Governo e sem prestar contas dividiram a área em lotes menores e passaram a negociar as terras através de “A Rural”, empresa imobiliária da Melo & Cia, com sede em Araçatuba.

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O Governo permanecia omisso e Elísio de Casto se associou a Manoel Bento da Cruz e criou a Rural Terras, Madeira & Colonização, “A Nova Rural”, com o escopo de negociar as terras que Elísio também tinha adquirido de Amadeu. Estavam abertos os tempos da grilagem, uma era de conflitos de interesses entre os ocupantes, grileiros, poceiros, fazendeiros, companhias agrícolas e colonos. O conflito foi controlado em 1925 com o envio de tropas intervencionistas do governo para Araçatuba. Grileiros mais ambiciosos foram eliminados.

Nesta época megainvestidores como o Coronel Francisco Schimidt - “Rei do Café” e o Senador Rodolfo Miranda, adquiriram terras na região (entre 1905 a 1925) e empresas como Collettes, Moura, Andrade & Cia (Antônio Joaquim de Moura Andrade, Seraphin Collettes e Guilherme Moura) passam a adquirir grandes áreas para dividí-las em pequenos lotes. Uma dessas áreas era uma grande área da Fazenda Barra do Tietê, que foi adquirida em 1917 e batizada de Fazenda Guanabara. A área possuía a estrada de ferro bem próxima, trecho que ligava Bauru a Itapura e Itapura a Porto Esperança, nas margens do rio Paraguai, próximo a Corumbá.

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FUNDAÇÃO 

A fundação de Andradina tem a data de 11 de julho de 1937, coincidindo com o lançamento da semana de inauguração da Estação Ferroviária. Contudo o município “ganhou vida” com os empreendimentos de Antônio Joaquim de Moura Andrade, que iniciaram em 1927. Em seus planos estava colonizar as terras que sua companhia – Collettes, Moura, Andrade & Cia. – tinham adquirido no extremo oeste de São Paulo. E claro que para isso, ele contou com o apoio incondicional do seu tio Francisco Theodoro de Andradina, iniciando a colonização das terras da antiga Fazenda Barra do Tietê em 1928.

 
 

A ocupação das terras do município acelerou no início dos anos 30 até o final dos anos 40, quando o sistema de ocupação foi modificado pelo projeto urbano da empresa Moura, Andrade & Cia, realizando um grandioso projeto de loteamento rural, totalmente por conta e risco da iniciativa privada. Era uma reforma agrária nos moldes capitalistas. Um convite para que homens possuíssem seu próprio pedaço de terra para cultivar; estes lotes e glebas de terras férteis eram financiados à longo prazo.

 
 

O espírito empreendedor dos primeiros colonos que chegaram às terras de Moura Andrade era excepcional. Eles não se deixaram abalar pelo ambiente hostil encontrado, com endemias diversas e dificuldades de fixação na terra. A exemplo, as não mais de 15 famílias de imigrantes japoneses que arrendaram a Fazenda Guanabara e como pagamento, devolveriam ao término do contrato a terra desmatada e formada com colonião. Durante os primeiros anos não mais de 100 colonos viram 28 de seus falecerem pelas endemias do Tietê, em sua maioria por malária e leishmaniose. Uma prova de respeito pelo passado pode ser vista no ato de Taro Morimoto que removeu os corpos destes 28 colonos para o Cemitério Municipal em 17 de outubro de 1972, quando o cemitério improvisado na própria colônia foi desativado.

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Se a origem de Andradina está intimamente ligada ao espírito empreender dos pioneiros, o povoamento local deve-se àqueles que insistiram e ficaram no local, se impondo ao ambiente que só poderia ser subjugado pela fé, força e pela coragem. 
Ao contrário do surgimento das cidades do interior, onde a cidade surgia em torno da Igreja. Andradina teve como marco zero, ponto inicial, a Estação. Até hoje pode ser visto o marco zero da cidade, na calçada do cruzamento da Avenida Guanabara com Rua Barão do Rio Branco.

 

Já o marco de fundação é um cruzeiro na praça do JBC, onde também foi rezada a primeira missa. Já em 20 de setembro de 1939 foi inaugurada a Capela, sendo o marco oficial da presença física da Igreja. A construção de 50m2 foi edificada pelo carpinteiro, conhecido por Tanaka, contratado no Distrito de Novo Oriente, e ficava onde hoje é a Paróquia de São Sebastião.
Depois de Andradina, a Moura, Andrade & Cia, dos irmãos Antônio e Octávio, iniciaram novas empreitadas e em 25 de julho de 1940 fundaram a Estância de Águas de São Pedro. Já em 20 de dezembro de 1958 o município de Nova Andradina, nas terras altas da Fazenda Baile. A visão e o pioneirismo de Moura Andrade fizeram com que o extremo oeste paulista e o sul do Mato Grosso povoassem.

 
 

ANDRADINA, A CIDADE NA SELVA

(Condensado do “Inter – American”) por Desmond Holdridge*, novembro de 1946

Um pequeno grupo de homens plantou uma cruz de madeira na terra vermelha e fecunda de uma clareira, numa das vastas florestas do Brasil. E ali ficou de pé, em atitude reverente, enquanto um padre invocava as bênçãos de Deus para a colônia que acabava de ser fundada. Por isso aquele empreendimento fora sonho de um homem que se chamava Antônio Joaquim Moura Andrade, o lugar foi denominado Andradina.
Aquelas terras do interior do estado de São Paulo eram um verdadeiro mar de vegetação hostil e ininterrupta, há oito anos. Por mais de 100 quilômetros em torno à nova cruz ali erguida, havia menos de mil seres humanos. A estrada de ferro do Noroeste do Brasil atravessava a verde selva, sem uma só parada. Se alguns dos pioneiros espalhados por ali fora reunisse uma colheita maior que o necessário para o seu próprio consumo, era pouco provável que tentasse levá-la até o mercado.

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E agora ergue-se uma cidade de quase mil habitantes na área em que a cruz foi plantada em 1938. Na mesma distância de 100 km há, atualmente, mais de 100 mil pessoas e 200 mil cabeças de gado. As ricas plantações, conquistas na luta contra a floresta, produzem arroz, café, laranjas, açúcar, milho, algodão e hortaliças.
Dispõe ela de dois hospitais modernos, um cinema, igrejas de vários cultos, escolas, seis bancos, um jornal florescente, 32 hotéis e pensões, uma excelente biblioteca, um campo de aviação, um clube com 400 sócios, uma rede de rodovias e conta, sem dúvida alguma, com o grupo mais próspero de pequenos fazendeiros de toda a América Latina.
Tudo isso foi obra de Antônio Moura Andrade. À sua larga visão se deve a concepção do audacioso projeto, a que seu idealismo prático deu forma, tendo sido com seu próprio capital que o financiou. Trata-se de uma empresa privada que trará, fatalmente, lucros. Mas significa, ao mesmo tempo, muito mais que isso. É a expressão concreta da fé de Antônio Moura Andrade na terra, nos homens e na liberdade.
Antônio Moura Andrade é um brasileiro que se fez por si próprio. Começou a trabalhar para um comerciante sírio, aos 12 anos de idade. Possui, agora, uma enorme fortuna, baseada na terra, no café, no gado e no seu verdadeiro gênio para a organização. É dono de 16 grandes fazendas, estando a par de seu funcionamento, nos menores detalhes.
Com a fé inabalável que tinha na terra, comprou, em 1939, vastos terrenos em plena floresta. Pagou cerca de 50 cruzeiros por hectare. No curso de vários anos, limpou grandes áreas da selva, plantando nelas capinzais. O resultado, como forragem para o gado, foi fantástico. As terras de Andrade alimentam o gado sete vezes mais, por cabeça e por quilômetro quadrado, que os pastos naturais do estado vizinho, Mato Grosso. Andrade prosperou. Mas ainda possuía grande parte da floresta que não conseguia utilizar, por falta de mão de obra.
É este o terrível problema de toda a América Latina. As cidades têm excessiva população. Oitenta e cinco por cento, talvez, de todos os americanos do sul, vivem à beira-mar, e as ricas terras do interior permanecem desertas, na sua imensidade.

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Moura Andrade possui terras de uma soberba riqueza, que desafiavam a energia e o espírito pioneiro de seus compatriotas. Mas um pioneiro morreria de fome, antes que conseguisse conquistar boa porção da selva, para plantar o necessário à sua subsistência. Precisava contar com o que viver, enquanto travasse sua batalha contra a natureza, de que sairia vencedor.
“O comunismo está crescendo no Brasil”, diz Moura Andrade, “e ninguém faz coisa alguma senão sugerir o fascismo como preventivo. É o mesmo que envenenar um dente para curá-lo de câncer. Quando os nossos ricaços investem todo o seu capital em empresas não produtivas, - os imensos arranha-céus, por exemplo – e deixam a massa do povo viver miseravelmente nas grandes cidades, ao passo que a terra, num país agrícola como este, permanece abandonada – é claro que o comunismo cria raízes. Pela teoria em que baseei meu projeto de Andradina, os homens, possuindo seu próprio pedaço de terra, produzem mais que os que trabalham nas grandes plantações de um patrão ausente, ou numa fazenda que funcione sobre base coletiva, marxista. Os pequenos fazendeiros prósperos são imunes ao comunismo, porque as condições de sua vida atual não são propícias ao desenvolvimento do germe comunista.”

Ocorre-lhe a ideia de dividir a terra em lotes e pô-los à venda, sob condições acessíveis a qualquer pessoa. Os que não pudessem pagar de uma vez, podiam adquirir títulos a uma simples promessa de pagamento. Moura Andrade tinha uma fé inabalável nos homens. Estava disposto até a adiantar capital a juros razoáveis, para a compra de sementes, ferramentas, comida e roupa, enquanto o colono aguardava sua primeira colheita. Só impunha duas condições: o candidato precisava ter mãos calejadas de trabalhador e não podia ser alemão, nem italiano ou japonês.
De várias partes de São Paulo foram ter a Andradina rendeiros que, naquelas terras podiam manter a cabeça erguida e, em troca do trabalho, obter a vida e a liberdade, para si próprios e suas famílias. Não havia um vestígio sequer do velho regime feudal. Eram, realmente, proprietários da terra, dispondo, ainda, dos meios necessários para pagar a dívida insignificante que contraiam inicialmente.
Subiu a mais de mil famílias a primeira leva de colonos. Estenderam encerados entre os ramos das árvores, ergueram barracas e casinhas de sapê que lhes pudessem dar algum abrigo, enquanto executavam a tarefa de limpar a floresta, o que representa, em selvas como aquelas, um dos mais laboriosos empreendimentos de que os homens sejam capazes. Os músculos doidos precisam manter o machado em constante labuta, sob o sol chamejante e as enxurradas. Há que serrar os grossos troncos das árvores, afim de utiliza-los como material de construção. Há que destruir toda a vegetação daninha. Não é um gênero de trabalho que os homens disponham a executar em troca o pão cotidiano. É mister que se sintam estimulados por um ideal mais elevado.

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Aos poucos, os abrigos provisórios foram substituídos pelos modestos esboços de futuras casas e as primeiras sementes foram plantadas. Alguns colonos julgaram proveitoso prestar serviços aos outros, contanto que estes, em troca, os ajudassem a limpar suas próprias terras. Um deles, por exemplo, fabricava tijolos para as casas, formando o núcleo das construções futuras. Outros se encarregavam de serrar a madeira das árvores derrubadas, pois todos precisavam de assoalhos e mobílias.
Amigos e parentes dos primeiros colonos começaram a saltar do trem, na nova estação de Andradina. Vendedores ambulantes decidiram estabelecer-se ali, abrindo lojas permanentes. Foram surgindo sacerdotes, bem como médicos – estes, em pequeno número porque o clima da região é excelente, sendo escassos os doentes.
Claro está que foi preciso reduzir o rigor da lei das mãos calejadas, à medida que foram surgindo novos elementos, vindos das cidades. O primeiro alfaiate de Andradina, por exemplo, era um comunista espanhol que se envolvera numa rixa política em São Paulo, e, vendo-se às voltas com a polícia, decidira escapar, refugiando-se em Andradina.
Andrade e o espanhol tiveram longa conversa, debatendo a fundo o ponto capital –insto é, se o alfaiate estava realmente decidido a trabalhar. O fato de que era estrangeiro, comunista e refugiado político não queria dizer coisa alguma. Finalmente Moura Andrade declarou: “Bom. Vamos andando pela estrada, e o senhor escolherá o lote de terra que quiser. Prometo fornecer-lhe o necessário até que limpe a terra, construa sua casa e recolha a primeira colheita. É um trabalho duro. Mas precisamos de alfaiate e, uma vez isso feito, poderá abrir uma loja na cidade.”

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Hoje em dia primeiro alfaiate de Andradina (já há outros) divide o tempo entre coser as roupas e cuidar do cafezal na sua excelente fazenda. Obtendo naturalmente lucros de ambas as tarefas. Já não tem mais nada de comunista. Thomas Jefferson, a dizer verdade, seria capaz de considerá-lo um verdadeiro democrata. “Vê o senhor,” observou Moura Andrade, “dei cabo da cultura e o micróbio morreu.”

Um trecho da floresta virgem foi cuidadosamente escolhido para os projetos da “zona industrial”. Alguns anos depois, várias serrarias, moinhos, fábricas de tijolos e outras, menores, já estavam funcionando naquela zona, para lá da estrada de ferro. O “bairro comercial” desenvolveu-se aos poucos de alguns pequenos armazéns e armarinhos e várias ruas espaçosas, com lojas muito semelhantes, de todos os pontos de vista, às das modernas cidades do mesmo tamanho.
As casas são bonitas e confortáveis. Todas são pintadas, têm tetos de telha e eletricidade e pertencem, sem exceção alguma, a seus moradores. O número dos que abandonaram seus lotes de terra é de menos de dois por cento, e outros continuam chegando constantemente. Já formaram nove povoações de 1.000 a 1.500 habitantes.
Os colonos cultivaram dois milhões de metros quadrados de terra, cujo valor atual é duas mil vezes maior que ao serem comprados por Andrade. Cerca de 60 por cento já pagaram completamente as hipotecas.  Estão, quase todos, prósperos, comprando as mercadorias à vista. Quando precisam de dinheiro emprestado vão a um dos seis bancos, contraem um empréstimo nas condições habituais e compram o que querem, onde lhes aprouver. Eliminaram, assim, o velho sistema de crédito que, em tantas terras, mantém o pequeno fazendeiro constantemente em dívida.
O sistema de latifúndios, que cria relações lamentáveis entre os pequenos trabalhadores e os grandes fazendeiros, é uma das profundas causas do abandono do interior da América do Sul. Onde quer que haja possibilidades de transporte, a fórmula adotada em Andradina poderá ser aplicada em outras terras.

“A realização de um projeto como este dá muita dor de cabeça”, confessa Moura Andrade, “porém, uma vez realizado, torna-se ainda mais fascinante e só se tem vontade de repetir a experiência. Poderíamos ter muitas outras Andradinas.”


*Desmond Holdridge fez muitas viagens à América Latina durante os últimos 15 anos, frequentemente como membro de missões científicas ou educacionais dos Estados Unidos. Publicou quatro livros e numerosos artigos, em diversas revistas, baseados nas suas observações sobre a vida latino-americana. Este artigo foi um dos últimos que escreveu, antes de seu recente falecimento num acidente de automóvel.

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CHEGADA DA PRIMEIRA LOCOMOTIVA DA NOROESTE A ANDRADINA

Quando a primeira locomotiva chegou a Andradina, em 1937, foi motivo de grande regozijo entre os desbravadores e muitos fizeram questão de fixar em fotografia aquele acontecimento para a história. Único meio de fácil transporte que viria garantir o escoamento da produção para os grandes centros consumidores. Abrindo condições reais de enriquecimento para o nosso município que surgia em plena segunda grande guerra, com a volúpia de verdadeira Canaã daqueles tempos, atraindo famílias de todos os recantos do Estado e do país.

 
 

Para realçar a importância da Estrada de Ferro naquela época, aos olhos das gerações de hoje, habituadas às facilidades do asfalto, basta dizer que um caminhão pelas estradas que eram verdadeiros picadões carroçáveis, gastava de Andradina a Araçatuba de 10 a 12 horas de viagem, quando conseguia romper os lamaçais. As locomotivas de então não se assemelhavam em nada às nossas de hoje a óleo diesel. Eram as famosas “Maria Fumaça”, tocadas a lenha, resfolegando e soltando fagulhas por toda parte, provocando incêndios nas matas ou nos capinzais ao longo da estrada durante as longas estiagens.
Mas apesar de tão primitivas elas foram o conforto, a alegria e a estrada longa por onde a civilização rasgou os sertões primitivos plantando cidades, dilatando o progresso, encurtando distâncias multiplicando as riquezas da Pátria comum. Página do passado que deve ser lembrada, a valorizar o labor heroico de nossos desbravadores que hão de sempre merecer a gratidão de todos, se orgulhar da cidadezinha de ontem, hoje “Metrópole de Urubupungá”.